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Desafios para inserção feminina na ciência

Em 2017, a Elsevier reuniu no relatório “Gender in the global research landscape”, os resultados de uma análise de 20 anos de pesquisas científicas, envolvendo 12 países e 27 áreas temáticas a partir do gênero. Como era de se esperar, questões de gênero afetam a produção científica. Algumas das principais conclusões do estudo apontam que a proporção de mulheres entre pesquisadores e inventores está aumentando; as mulheres publicam em média menos artigos do que os homens, mas não há evidência de que isso afete como seus artigos são citados ou baixados; em comparação com os homens, as mulheres são menos propensas a serem convidadas a colaborar em pesquisas internacionais e em colaborações entre a universidade e empresas; as mulheres também têm menos circulação internacionais do que os seus pares do sexo masculino. Em geral, a produção acadêmica das mulheres inclui uma proporção ligeiramente maior em áreas interdisciplinar do que a dos homens; a pesquisa de gênero está crescendo em termos de tamanho e complexidade, com novos tópicos surgindo ao longo do tempo.

No Brasil, segundo o mesmo relatório, a proporção de mulheres que publicam artigos científicos cresceu 11% nos últimos 20 anos. As pesquisadoras publicam quase a mesma quantidade que os pesquisadores (49%). Também subiu a proporção de mulheres “inventoras”, de 11% para 17% entre 1996 e 2015. Por outro lado, publicações de áreas como Computação e Matemática têm mais do que 75% de homens na autoria dos trabalhos. O relatório Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM), publicado pela Unesco em 2018, aponta que apenas 17 mulheres receberam o Prêmio Nobel em física, química ou medicina desde Marie Curie, em 1903, em comparação a 572 homens. Hoje, apenas 28% dos pesquisadores de todo o mundo são mulheres. Esses dados atestam que, a despeito do aumento da presença feminina na Academia, fazer ciência e ser mulher segue como um desafio cuja superação demanda mudanças de práticas institucionais, políticas específicas para alcançar a paridade e, sobretudo, novos olhares sobre a mulher no mundo da ciência e do trabalho.

São diversos os fatores que desenham esse cenário de desigualdade: estereótipos que mostram cientistas como homens brancos e velhos e, ainda em muitos casos, como excêntricos ou loucos, ideias que ligam o perfil feminino à falta de ambição e a dificuldades de estabelecer pensamentos lógicos. O assédio moral e o assédio sexual também representam obstáculos nas carreiras das mulheres. Em evento na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que aconteceu em 08 de março, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher, a pesquisadora Marcia Cristina Bernardes Barbosa, do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IF/UFRGS), apresentou dados da Unesco que mostram que a presença das mulheres na ciência cai ao longo do tempo, especialmente na pós-graduação e nas disciplinas da área de Exatas. Segundo ela, quando se trata de mulheres, invés de considerar o desempenho intelectual, as pessoas se preocupam com as roupas, as companhias ou mesmo com a vida pessoal. Em 2013, Barbosa recebeu o Prêmio L’oreal Unesco “Para mulheres na ciência” por suas pesquisas sobre as particularidades da água. O Programa, que está completando 14 anos no Brasil e 21 anos no mundo, tem como motivação a transformação do panorama da ciência, favorecendo o equilíbrio dos gêneros no cenário brasileiro e global, incentivando a entrada de mulheres no universo científico.

Preconceito institucionalizado – A economista comportamental da Kennedy School of Government da Harvard University, Iris Bohnet, defende a necessidade de identificar comportamentos preconceituosos que estão enraizados nas instituições. No livro “What works: gender equality by design” (2016), ela afirma que o recrutamento de candidatos para uma vaga de trabalho, as escolhas para uma promoção, assim como uma série de outros processos que acontecem nas empresas, na academia e no mundo do trabalho de maneira geral estão contaminados por associações enviesadas que as pessoas fazem, muitas vezes sem perceber. “Em boa parte dos processos de avaliação as pessoas são avaliadas a partir de sua performance passada e de seu potencial futuro. Enquanto as ações no passado são mais facilmente quantificáveis, o futuro é um campo totalmente em aberto e é justamente onde nós preenchemos os espaços em branco com estereótipos de como um líder deveria ser, afirmou Bohnet em entrevista no World Economic Forum, em 2018. Por isso, para alcançar a igualdade de gênero seriam necessárias transformações no nível das organizações e não somente no âmbito individual. “É preciso modificar as organizações e não só as pessoas”, disse. Ela sugere, por exemplo, a imposição de “normas de correção política” que esclarecem os termos de engajamento do grupo como meio para atingir maior igualdade de pontos de vista e perspectivas. Essas normas podem funcionar como um convite para que as pessoas questionem seus próprios preconceitos subjacentes.

Mais meninas nas bancadas – Em outro foco de atuação a educação de meninas e meninos também pode ajudar a transformar esse cenário e levar mais meninas a se interessarem pela carreira científica. O relatório da Unesco, que analisou os fatores que impedem ou facilitam a participação, os resultados e a continuidade de meninas e mulheres na educação em STEM, aponta que as diferenças de gênero na participação na educação em STEM em detrimento das meninas já são visíveis na educação infantil e se tornam ainda mais visíveis nos níveis de ensino mais altos. Aparentemente as meninas perdem interesse em STEM com a idade, e baixos níveis de participação já são vistos em estudos avançados do nível secundário.

Ainda de acordo com esse documento, os fatores que afastam as meninas das áreas de ciências incluem normas sociais, culturais e de gênero, que influenciam a forma como meninas e meninos são criados, como aprendem e como interagem com seus pais, com sua família, amigos, docentes e com a comunidade como um todo, assim como formam sua identidade, suas crenças, seu comportamento e suas escolhas. Existe um viés de auto seleção, que ocorre quando mulheres e meninas decidem por não seguir em estudos ou carreiras em STEM. Porém, essa “escolha” é um resultado do processo de socialização e de estereótipos que são explícita e implicitamente transmitidos às meninas desde muito cedo. Com frequência, as meninas são criadas acreditando que STEM consistem em assuntos “masculinos”, e que a habilidade feminina nesse campo é intrinsecamente inferior à masculina. Isso pode diminuir a confiança das meninas, bem como o seu interesse e a sua vontade de se envolver com disciplinas de STEM. Por isso, os sistemas educacionais e as escolas desempenham um papel central em determinar o interesse das meninas em disciplinas de STEM, bem como em oferecer oportunidades iguais para acessarem e se beneficiarem de uma educação em STEM de qualidade.

Meninas no circuito

Circuito feito com massinha de modelar. Crédito: projeto “Tem menina no circuito”

A universidade também pode ajudar a atrair meninas para carreiras científicas. Esse foi o objetivo da física Tatiana Rappoport, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 2013, ela, juntamente com outras duas cientistas, Elis Sinnecker e Thereza Paiva, para criar o “Tem menina no circuito”. “O objetivo é utilizar a eletrônica para motivar meninas a se interessarem pelas ciências exatas”, afirmou Rappoport no evento da SBPC. As atividades incluem oficinas para alunas do ensino médio onde elas criam desde circuitos elétricos simples a sistemas mais complexos que podem ser como conjuntos de LEDs e motores que respondam a estímulos sonoros. O projeto rompe com uma ideia de que as meninas não têm interesse em eletrônica ou em montar equipamentos. Com custo baixo, as oficinas utilizam massa de modelar, papel e tecido. Entre as atividades também há visitas na universidade e museus de ciência, buscando mostrar que a ciência pode ser divertida e interessante.

 

Fonte: Portal Campinas Inovadora

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